“Em qualquer
época entre 1750 e 1930, se você pedisse às pessoas cultas para descrever o
objetivo da poesia, da arte ou da música, elas teriam respondido: a Beleza. E
se você perguntasse pela razão disso, você aprenderia que a Beleza é um valor,
tão importante quanto a Verdade e o Bem.
Depois, no
século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, cada vez mais, concentrou-se
em perturbar e em quebrar tabus morais. Não era a beleza, mas a originalidade, conseguida
por qualquer meio e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios.
Não apenas a
arte fez um culto à feiura; a arquitetura também se tornou desalmada e estéril.
E não foi somente o nosso ambiente físico que se tornou feio. Nossa linguagem,
nossa música e nossas maneiras estão cada vez mais rudes, egoístas e ofensivas;
como se a beleza e o bom gosto não tivessem nenhum lugar real em nossas
vidas. [...]
Eu acho que nós
estamos perdendo a beleza e há um risco de que, com isso, nós percamos o
sentido da vida.”
São essas as palavras com
que o filósofo e escritor inglês Roger Scruton (1944- ) abre o documentário Why Beauty Matters? (Por que a beleza importa?),
exibido em 2009 pela emissora BBC como parte da série Modern Beauty.
Scruton, que é também autor de um livro sobre o tema (Beauty, Oxford University
Press, 2010),
defende neste vídeo a tese de que a beleza importa, não apenas como algo
subjetivo, “mas como uma necessidade universal dos seres humanos”, destacando
igualmente o fato de que, no século XX, após ter cumprido por mais de 2 mil
anos um papel essencial em nossa civilização, a beleza deixou de receber a devida
importância: “nosso mundo virou as costas para a beleza”, de modo que nos
encontramos “rodeados de feiura e demência”.
Ele entende que, para
os artistas do passado, a beleza era o remédio para o caos e o sofrimento da
vida: “A bela obra de arte traz consolação na tristeza e afirmação na alegria.
Ela mostra que a vida humana vale a pena”. Porém “muitos artistas modernos se
cansaram dessa tarefa sagrada”, julgando que “a desordem da vida moderna não
poderia ser redimida pela arte”. Em vez disso, tal desordem deveria ser
exposta.
O marco dessa mudança
foi, segundo Scruton, a célebre Fonte de Marcel Duchamp, não em si mesma, mas pelas interpretações que gerou, as quais levaram à
conclusão de que tudo pode ser arte. “A arte não mais tem uma posição sagrada,
a arte não mais se eleva a um plano moral ou espiritual mais alto; ela é apenas
mais um gesto humano entre outros, sem maior significado que uma gargalhada ou
um grito.”
Trocou-se o culto à
beleza pelo culto à feiura: “Uma vez que o mundo é perturbador, a arte deve ser
perturbadora também. Aqueles que procuram por beleza na arte estão somente
desligados da realidade moderna.”
Perceba-se a
particularidade deste fato para o qual Roger Scruton nos chama a atenção. No
caso, apelar para a subjetividade presente na avaliação dos valores estéticos
não resolve o problema levantado pelo filósofo, pois aqui não se trata simplesmente
de uma mudança de critério para o julgamento sobre a beleza de uma obra de
arte. A mudança foi de intenção.
Em primeiro lugar, houve por um lado a drástica
diminuição de importância dada à beleza em relação a outros valores, de outra espécie
que não a estética, como a novidade, a utilidade, a incomodidade, a agressividade.
Ou seja, aconteceu uma transmutação na hierarquia dos valores. Em segundo
lugar, dependendo de qual daqueles novos objetivos estivesse em foco, houve uma
alteração, em nível escalar, do próprio valor estético almejado, passando-se do
belo para o feio: se o objetivo principal é perturbar ou ofender, a feiura estará
sem dúvida mais apta a alcançar tal objetivo.
Assim, a crítica de
Scruton a esse tipo de arte não é equivalente, por exemplo, às críticas dos
acadêmicos em relação à pintura impressionista ou dos renascentistas em relação
à arte medieval. Tais divergências de gosto na história da arte sim podem
justificar-se por certa subjetividade própria dos julgamentos de valor. É
possível dizer que acadêmicos, impressionistas, renascentistas e medievais privilegiavam
aspectos diferentes da beleza. Mas nenhum deles poderia ser acusado de
desprezá-la em sua totalidade ou de buscar deliberadamente produzir algo feio.
Teria
a arte mudado de natureza no século XX? Ou melhor, teria sido o termo “arte” indevidamente
apropriado por algo alheio a ela? Questões
como essas surgem das tiradas irônicas de Scruton:
“Às
vezes a intenção é nos chocar, mas o que é chocante na primeira vez é chato e vazio
quando repetido. Isso conduz a arte para dentro de uma piada intrincada, que
agora deixou de ter graça.”
“A
arte criativa não é realizada assim, simplesmente tendo uma ideia. Claro,
ideias podem ser interessantes e divertidas, mas isso não justifica a
apropriação do rótulo de ‘arte’. Se uma obra de arte não é nada mais que uma
ideia, qualquer um pode ser um artista e qualquer objeto pode ser uma obra de
arte. Não há mais necessidade de habilidade, gosto ou criatividade.”
“Então,
a arte de hoje nos mostra o mundo como ele é, o aqui e agora com todas suas
imperfeições; mas o resultado realmente é arte? Certamente uma coisa não é uma
obra de arte somente porque mostra um pedaço da realidade (a feiura incluída) e
se auto intitula de ‘arte’. A arte precisa de criatividade, e criatividade é
sobre compartilhar, é um chamado para que os outros vejam o mundo como o
artista o vê.”
Não se entenda que
Scruton se refira a toda a arte
produzida desde 1930 até os dias de hoje. É óbvio que expressões como “a arte
de hoje” trazem implícita a existência de exceções à regra, o que é inclusive salientado
pela menção, no vídeo, de duas dessas exceções: um escultor, Alexander Stoddart, e um arquiteto, Leon Krier. A “arte de hoje” a que o
filósofo se refere é um tipo específico, que pode ser induzido a partir dos exemplos
apresentados no documentário, e que recebe essa referência genérica por ser aquele
de maior relevo e prestígio no establishment
artístico, de tal modo que “Aqueles que tentam restaurar a antiga conexão entre
o belo e o sagrado são vistos como antiquados e absurdos”. (Vale notar ainda
que ele analisa especialmente a situação na Grã-Bretanha).
Do mesmo modo, não se
entenda que para Roger Scruton a feiura e a perturbação devam ser inteiramente
desvinculadas da arte. Não é assim. Após resumir a história das concepções filosóficas
relativas à beleza (de Platão a Kant), ele volta a um ponto mencionado no
início:
“Obviamente
esse hábito de enfatizar o lado desolador da vida humana não é novo. Desde o
início de nossa civilização, tem sido uma das tarefas da arte pegar o que é
mais doloroso na condição humana e redimi-lo em uma obra de beleza. A arte tem
a habilidade de redimir a vida ao encontrar beleza até nos piores aspectos das
coisas.”
A
diferença é exemplificada pela comparação entre uma pintura de Delacroix, que representa
uma cama desarrumada, e uma instalação de Tracy Emin, que é uma cama desarrumada. Conforme interpreta Scruton, a pintura de Delacroix traz “beleza a algo que não a tem”, conferindo “uma espécie de bênção, em seu
próprio caos emocional.”
“A
cama é transformada pelo ato criativo, para se tornar outra coisa: um símbolo
vívido da condição humana, um símbolo que estabelece um vínculo entre nós e o
artista.” Embora alguns vejam esse significado também na instalação de Tracy
Emin (intitulada “My Bed”),
Roger Scruton faz uma distinção: “mas há toda a diferença do mundo entre uma
verdadeira obra de arte, que transforma a feiura em algo belo, e uma falsa obra
de arte, que participa da feiura que exibe”. A cama de Emin
“é só mais uma realidade sórdida entre outras; literalmente, uma cama
desarrumada.”
Enfim, a discussão
levantada por Scruton se refere à hierarquização dos valores, ao porquê de
certos valores valerem mais do que outros. E, nessa discussão, ele defende fervorosamente
a importância da Beleza:
“Neste
filme eu descrevi a beleza como um recurso essencial. Através da busca pela
beleza, nós modelamos o mundo como um lar e, fazendo isso, nós igualmente
ampliamos nossas alegrias e encontramos consolação para nossas tristezas. A
arte e a música lançam uma luz de significado na vida ordinária e, através
delas, nós somos capazes de enfrentar as coisas que nos preocupam e encontrar
consolação e paz em suas presenças. Essa capacidade da beleza, de redimir nosso
sofrimento, é um motivo pelo qual a beleza pode ser vista como substituta para a
religião.
Por
que dar prioridade à religião? Por que não dizer que a religião é uma
substituta da beleza? Melhor ainda, por que descrever as duas como rivais? O
sagrado e o belo, permanecendo lado a lado: duas portas que abrem para um único
lugar; e, nesse lugar, nós encontramos o nosso lar.”
Nota: Este texto é um
rascunho que poderá ser ampliado e revisado para futura publicação em outro
suporte.